«Quanto tempo leva para aprender chinês?» é a pergunta número um, e ela está mal formulada. Não por ser ingênua, mas porque «aprender chinês» não é um ponto de chegada: são cinco ou seis metas muito diferentes, separadas por anos entre si.
Alonso Coronado陆子龙
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Vamos começar pela única cifra séria que existe e, em seguida, desmontá-la — porque ela quase sempre é citada sem as advertências que a tornam útil.
As 2 200 horas, e suas quatro letras miúdas
O Foreign Service Institute, a escola de idiomas do serviço diplomático dos Estados Unidos, ensina línguas há mais de setenta anos e mede quanto tempo seus alunos levam. Ele classifica o mandarim na categoria mais difícil, junto com árabe, japonês e coreano: 88 semanas, cerca de 2 200 horas de aula.
É o dado que você vai ver repetido em todo lugar. E ele é real. Mas significa quatro coisas que quase nunca são transmitidas:
01Não mede «falar chinês». Mede um nível profissional. O alvo é um 3/3 na escala do ILR: trabalhar em chinês, discutir temas abstratos, ler imprensa. Em termos europeus, um B2 alto ou um C1 baixo. Muito mais do que a maioria das pessoas quer.
02São horas de aula, não de estudo. A essas 2 200 é preciso somar a tarefa, que num programa desses são várias horas diárias a mais.
03São alunos em condições que você não tem. Adultos selecionados por aptidão linguística, remunerados, em tempo integral, em turmas mínimas. É o teto do que se consegue com recursos ilimitados, não uma média.
04Estão medidos sobre falantes de inglês. Esse é o ponto de partida do FSI. Para quem fala português a parte falada do chinês é bem mais amável do que essa cifra sugere — o h, as nasais e a sílaba fraca já vêm prontos. Explico em o artigo principal.
2 200 horas é o que custa trabalhar em chinês com instrução intensiva. Não é o que custa falar chinês.
Se você quiser mesmo assim fazer a conta crua: 2 200 horas a meia hora por dia dão uns doze anos. A duas horas por dia, três anos. Essa aritmética assusta, e por isso quase ninguém a publica — mas assusta demais, porque está medindo uma meta que provavelmente não é a sua.
A primeira meta — ouvir os quatro tons — é questão de semanas, e é a mais rentável de todas.
Isto é mais útil que uma cifra global. As faixas abaixo supõem algo constante e modesto — da ordem de meia hora por dia, quase todos os dias — e variam muito de pessoa para pessoa. Vão como ordens de grandeza, não como promessas:
Meta
Ordem de grandeza
O que acelera ou trava
Distinguir os quatro tons de ouvido
semanas
Ouvir muito e em pares mínimos. É o primeiro e o mais rentável
Se apresentar e sustentar uma troca básica
alguns meses
Depende quase só de você abrir a boca ou apenas estudar
Pedir comida, se locomover, resolver o dia
meio ano a um ano
Vocabulário concreto; pouca gramática nova
Ler um cardápio e placas com desenvoltura
cerca de um ano
Caracteres, e eles são o trabalho mais lento e constante
Conversar sobre o que te interessa
vários anos
É aqui que a maioria desiste, e não por dificuldade
Ler imprensa sem dicionário
muitos anos
É a meta do FSI. Pouquíssimos precisam dela
O que de fato decide o tempo
Depois de anos dando aula, a diferença entre quem chega e quem não chega quase nunca é talento nem método. São três coisas, nesta ordem:
A constância ganha da intensidade. Vinte minutos diários rendem mais que três horas no domingo, porque a memória de uma palavra se constrói por repetição espaçada no tempo, não por volume numa sessão. Uma semana em branco custa mais do que parece.
Falar desde o começo, mesmo saindo mal. O erro mais caro que vejo é deixar a produção para «quando eu já souber». Entender e produzir são habilidades distintas e se treinam separadamente. Em chinês isso pesa em dobro por causa dos tons: reconhecê-los de ouvido não ensina a produzi-los.
Não empacar no intermediário. O ponto onde mais gente se perde não é o começo: é quando o material para iniciantes já ficou pequeno e o conteúdo nativo ainda está grande demais. Esse vão não se atravessa estudando mais do mesmo — se atravessa conseguindo material logo acima de onde você está.
A resposta curta
Se você precisa ficar com uma frase só: em semanas você começa a ouvir os tons, em meses se apresenta e sustenta uma troca, em um ano se vira, e em vários anos conversa de verdade. As 2 200 horas do FSI medem outra coisa, muito mais acima, e com recursos que ninguém tem fora de um programa diplomático.
E uma última, que é a que muda o resultado: qualquer um desses prazos só se cumpre se a resposta para «estudou hoje?» for sim, quase sempre.
Perguntas frequentes
Quantas horas são necessárias para aprender chinês?
O Foreign Service Institute estima cerca de 2 200 horas de aula para chegar a um nível profissional — trabalhar em chinês, ler imprensa —, medido sobre falantes de inglês em instrução intensiva e em tempo integral. É o teto do alcançável com recursos ilimitados, não uma média, e mede uma meta bem mais alta que a da maioria.
Dá para aprender chinês em um ano?
Depende do que aprender significa. Em um ano de prática constante é razoável se virar em situações do dia a dia e ler placas e cardápios com desenvoltura. Conversar com conforto sobre temas que te interessam leva vários anos a mais.
Quanto tempo leva para aprender os tons do chinês?
Distingui-los de ouvido é questão de semanas se você praticar com pares mínimos, ou seja, a mesma sílaba com dois tons diferentes, uma atrás da outra. Produzi-los de forma estável dentro de frases leva meses e depende de quanto você fala em voz alta, não de quanto estuda.
O chinês é mais rápido de aprender para quem fala português?
Na parte falada, sim, e mais do que para quem fala espanhol: o h do pinyin é o seu r de rato, as sílabas nasais caem em terreno conhecido e a sua sílaba átona já perde peso, que é o que o tom neutro pede. Na escrita não há vantagem nenhuma, e os caracteres são a parte mais lenta.
É melhor estudar chinês todos os dias ou em sessões longas?
Todos os dias, mesmo que sejam vinte minutos. A memória de uma palavra se constrói por repetição espaçada no tempo, não por volume numa única sessão, então a constância rende mais que a intensidade.