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Quanto tempo leva para aprender chinês de verdade

«Quanto tempo leva para aprender chinês?» é a pergunta número um, e ela está mal formulada. Não por ser ingênua, mas porque «aprender chinês» não é um ponto de chegada: são cinco ou seis metas muito diferentes, separadas por anos entre si.

Alonso Coronado, 陆子龙

Alonso Coronado陆子龙

·8 min de leitura

Vamos começar pela única cifra séria que existe e, em seguida, desmontá-la — porque ela quase sempre é citada sem as advertências que a tornam útil.

As 2 200 horas, e suas quatro letras miúdas

O Foreign Service Institute, a escola de idiomas do serviço diplomático dos Estados Unidos, ensina línguas há mais de setenta anos e mede quanto tempo seus alunos levam. Ele classifica o mandarim na categoria mais difícil, junto com árabe, japonês e coreano: 88 semanas, cerca de 2 200 horas de aula.

É o dado que você vai ver repetido em todo lugar. E ele é real. Mas significa quatro coisas que quase nunca são transmitidas:

  1. Não mede «falar chinês». Mede um nível profissional. O alvo é um 3/3 na escala do ILR: trabalhar em chinês, discutir temas abstratos, ler imprensa. Em termos europeus, um B2 alto ou um C1 baixo. Muito mais do que a maioria das pessoas quer.
  2. São horas de aula, não de estudo. A essas 2 200 é preciso somar a tarefa, que num programa desses são várias horas diárias a mais.
  3. São alunos em condições que você não tem. Adultos selecionados por aptidão linguística, remunerados, em tempo integral, em turmas mínimas. É o teto do que se consegue com recursos ilimitados, não uma média.
  4. Estão medidos sobre falantes de inglês. Esse é o ponto de partida do FSI. Para quem fala português a parte falada do chinês é bem mais amável do que essa cifra sugere — o h, as nasais e a sílaba fraca já vêm prontos. Explico em o artigo principal.

2 200 horas é o que custa trabalhar em chinês com instrução intensiva. Não é o que custa falar chinês.

Se você quiser mesmo assim fazer a conta crua: 2 200 horas a meia hora por dia dão uns doze anos. A duas horas por dia, três anos. Essa aritmética assusta, e por isso quase ninguém a publica — mas assusta demais, porque está medindo uma meta que provavelmente não é a sua.

A primeira meta — ouvir os quatro tons — é questão de semanas, e é a mais rentável de todas.

As metas que importam, uma a uma

Isto é mais útil que uma cifra global. As faixas abaixo supõem algo constante e modesto — da ordem de meia hora por dia, quase todos os dias — e variam muito de pessoa para pessoa. Vão como ordens de grandeza, não como promessas:

MetaOrdem de grandezaO que acelera ou trava
Distinguir os quatro tons de ouvidosemanasOuvir muito e em pares mínimos. É o primeiro e o mais rentável
Se apresentar e sustentar uma troca básicaalguns mesesDepende quase só de você abrir a boca ou apenas estudar
Pedir comida, se locomover, resolver o diameio ano a um anoVocabulário concreto; pouca gramática nova
Ler um cardápio e placas com desenvolturacerca de um anoCaracteres, e eles são o trabalho mais lento e constante
Conversar sobre o que te interessavários anosÉ aqui que a maioria desiste, e não por dificuldade
Ler imprensa sem dicionáriomuitos anosÉ a meta do FSI. Pouquíssimos precisam dela

O que de fato decide o tempo

Depois de anos dando aula, a diferença entre quem chega e quem não chega quase nunca é talento nem método. São três coisas, nesta ordem:

A constância ganha da intensidade. Vinte minutos diários rendem mais que três horas no domingo, porque a memória de uma palavra se constrói por repetição espaçada no tempo, não por volume numa sessão. Uma semana em branco custa mais do que parece.

Falar desde o começo, mesmo saindo mal. O erro mais caro que vejo é deixar a produção para «quando eu já souber». Entender e produzir são habilidades distintas e se treinam separadamente. Em chinês isso pesa em dobro por causa dos tons: reconhecê-los de ouvido não ensina a produzi-los.

Não empacar no intermediário. O ponto onde mais gente se perde não é o começo: é quando o material para iniciantes já ficou pequeno e o conteúdo nativo ainda está grande demais. Esse vão não se atravessa estudando mais do mesmo — se atravessa conseguindo material logo acima de onde você está.


A resposta curta

Se você precisa ficar com uma frase só: em semanas você começa a ouvir os tons, em meses se apresenta e sustenta uma troca, em um ano se vira, e em vários anos conversa de verdade. As 2 200 horas do FSI medem outra coisa, muito mais acima, e com recursos que ninguém tem fora de um programa diplomático.

E uma última, que é a que muda o resultado: qualquer um desses prazos só se cumpre se a resposta para «estudou hoje?» for sim, quase sempre.

Perguntas frequentes

Quantas horas são necessárias para aprender chinês?

O Foreign Service Institute estima cerca de 2 200 horas de aula para chegar a um nível profissional — trabalhar em chinês, ler imprensa —, medido sobre falantes de inglês em instrução intensiva e em tempo integral. É o teto do alcançável com recursos ilimitados, não uma média, e mede uma meta bem mais alta que a da maioria.

Dá para aprender chinês em um ano?

Depende do que aprender significa. Em um ano de prática constante é razoável se virar em situações do dia a dia e ler placas e cardápios com desenvoltura. Conversar com conforto sobre temas que te interessam leva vários anos a mais.

Quanto tempo leva para aprender os tons do chinês?

Distingui-los de ouvido é questão de semanas se você praticar com pares mínimos, ou seja, a mesma sílaba com dois tons diferentes, uma atrás da outra. Produzi-los de forma estável dentro de frases leva meses e depende de quanto você fala em voz alta, não de quanto estuda.

O chinês é mais rápido de aprender para quem fala português?

Na parte falada, sim, e mais do que para quem fala espanhol: o h do pinyin é o seu r de rato, as sílabas nasais caem em terreno conhecido e a sua sílaba átona já perde peso, que é o que o tom neutro pede. Na escrita não há vantagem nenhuma, e os caracteres são a parte mais lenta.

É melhor estudar chinês todos os dias ou em sessões longas?

Todos os dias, mesmo que sejam vinte minutos. A memória de uma palavra se constrói por repetição espaçada no tempo, não por volume numa única sessão, então a constância rende mais que a intensidade.

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